domingo, 30 de setembro de 2012

O romantismo de John Keats


Eu finalmente resgatei um DVD meu que estava emprestado há séculos. Bright Star (me recuso a me referir a ele pelo título em português). No mesmo dia assisti e me envolvi novamente na beleza do filme. Ele é calmo, triste, belo e doce. Narra um pedaço da história de John Keats, que, pra quem não sabe, foi/é um dos maiores poetas ingleses. O filme resgata os acontecimentos a partir de quando ele conhece o amor de sua vida, Fanny Brawnie. 

Enquanto assistia, me lembrei que ficara maravilhada ao assistí-lo pela primeira vez. O filme é cheio de  gestos, pequenos olhares, detalhes, e a câmera frequentemente chama atenção para os dedos entrelaçados dos dois. E como sempre preciso compartilhar com alguém a arte que vivo, juntei naquela época um bocado de amigas para assistirem também. Ah, e como eu fiquei irada.  Elas não calaram a boca um segundo durante o filme, fazendo comentários de "boring!" e perguntando de dez em dez minutos quanto faltava para o final do filme. 

Mas o que mais me deixou incrédula foi quando alguém reclamou o quanto era estranho o momento em que, sentados no sofá, John Keats descansa a cabeça no peito de Fanny. Quando assistira ao filme sozinha essa foi uma das cenas que mais me chamou a atenção, acho que exatamente por ser 'estranha' aos dias de hoje, quando o mais comum é acontecer o contrário. 

Como pode um ato como o de Keats no filme passar incompreendido pelos olhos de alguém? Talvez a minha amiga, e outras pessoas, estejam tão inseridas nas pré-definições atuais (até de gestos!) que só podem mesmo achar estranho. Tudo já está esculpido em um padrão, e nós só precisamos fazer de acordo com o modelo. Na minha cabeça o gesto de Keats se destaca pela sua sinceridade e exatamente por ser tão incomum.

Ainda no filme, o choro desesperado e sufocante de Fanny Brawnie (palmas para Abbie Cornish) é o mais honesto e perturbador da minha história do cinema. Ela não consegue respirar. No século XXI, as pessoas estão tão desapegadas umas das outras que eu não acho que sejamos capazes de chorar com tamanha sinceridade por alguém. O Romantismo (com r maiúsculo) carrega uma dose de devoção, honestidade e respeito com a qual não estamos acostumados.

"Repousaria sobre o seio maduro do meu justo amor
 Para sentir para sempre sua macia imensidão
 E despertar para sempre em uma doce inquietude
 Ainda, ainda a ouvir o seu suave respirar."

Para mim é natural o encanto que versos como esse de Keats desencadeiam.

E se Quentin Tarantino, que derrama sangue como água, considerou o filme um dos melhores do ano (2009) e o descreveu como "brilhante" em uma carta de amor à diretora Jane Campion, acho que você deveria assisti-lo. Se não para apreciar a arte e a sensibilidade que exalam dele, pelo menos para achá-lo estranho.

Nenhum comentário: