sábado, 28 de agosto de 2010

Viagem.

Ela sobe no ônibus. Sua próxima jornada de uma hora e meia já começa a entediá-la. Senta em uma cadeira vaga ao lado de uma das janelas após pagar sua passagem e passar pela catraca. Observa aqueles ao seu redor. Conhece cada pessoa e seus detalhes. Com exceção, claro, dos que estão atrás, fora de sua vista. Toma um pouco de água enquanto vê as ruas passarem. Pensa o que vai ser hoje. Uma leitura tremida pelo balanço do ônibus ou olhar pela janela os pedestres e carros? Na medida em que decide o tempo passa, o ônibus corre e ela vai chegando mais perto de seu destino. Seu olhar é atraído para a frente do automóvel. Uma pessoa até então desconhecida embarcou. Sua beleza lhe chama a atenção e ela passa a observá-lo. Passando pela cobradora, ele se dirige para o corredor, procurando um assento vazio. Seus olhares se encontram. Ela não pode esperar que ele se dirija ao lugar vazio ao seu lado. Eles nunca fazem isso. Mesmo que ela lhes peça mentalmente. E com ele não é diferente. Senta duas fileiras à frente dela, no corredor oposto ao seu. Agora ela não conseguirá prestar atenção em sua leitura que nunca começou. A pequena decisão que teria que tomar anteriormente já foi tomada sem o seu consentimento. Duranto o resto de sua jornada ela presta atenção em seu mais novo conhecido. Tentando arrancar dele qualquer traço de sua personalidade. Muitas mexidas no cabelo podem significar vaidade. Sorrisos gratuitos, ele pode ser amoroso. Segurando a bolsa de alguém, gentil. Sua roupa ajuda a defini-lo. Fones nos ouvidos, ele gosta de música. Um anel no dedo anelar, comprometido. Será que ele curte cinema? Qual será sua comida preferida? Qual será seu curso? Onde será que irá descer? Estará ele indo ao mesmo lugar que ela? Sua cabeça enche de suposições e sonhos que não lhe pertencem. Mas ela não tem controle sobre eles. Não os poderia deter. Nem se quisesse. Se surpreende vendo que três paradas antes da sua ele ainda não desembarcou. Será que seguirão ao mesmo lugar? Ao levantar-se, quase esbarra com ele em direção ao fundo do ônibus. Seus olhares se cruzam novamente, mas o embaraço é mais forte e ela abaixa a cabeça, indo na frente. Desce do ônibus e diminui o passo, com intenção de ver aonde ele irá. Se dá conta de que não ao mesmo lugar que ela. Vê suas costas se distanciarem enquanto aquelas suposições e sonhos se partem, caindo. Mas não se desmancham, como papel. São feitas de material mais resistente e ficarão guardadas lá no fundo de sua mente, esperando para serem remendadas.

Um comentário:

Juliana Lacerda disse...

CARAMBA!
Se essa história já não me soasse tão familiar, eu pensaria que era o prefácio de um livro alà Stephenie Meyer!!!
haha

Ily
xx, J.