
Eu preciso ir ao cinema urgentemente. Preciso assistir a um filme na tela grande. Tô entrando em crise de abstinência.
Preciso sentir o prazer de chegar lá, escolher meu filme, encher meus pulmões de ar e soltar tudo de uma vez só pra tia da bilheteria. Quantidade de ingressos, meia/inteira, filme e horário.
Depois disso ficar conversando baboseiras e andando pelo shopping enquanto a hora do filme não chega. Ou então, correr pra comprar mantimentos para as (em média) duas horas de reclusão na sala escura. Chocolatte, salgadinho, coca-cola, marshmallow e mais chocolate.
Por incrível que pareça eu nunca compro pipoca pra comer no cinema. Mas, mesmo assim, adoro quando me sento em frente à tela e o cheiro da pipoca que outras pessoas compraram domina meu olfato.
Também tem os minutos em que você fica na fila para entrar na sala. Esperando ansiosamente, ouvindo conversas alheias e se segurando pra não atacar as guloseimas antes mesmo de entrar no cinema propriamente dito.
Tem a parte em que você entrega o seu ingresso ao carinha do cinema e estende a mão esperando ele lhe devolver a parte que fica com você. E quando ele lhe devolve você guarda na bolsa pra poder colar na agenda assim que chegar em casa.
O verdadeiro ritual começa, porém, quando se adentra na sala escura. Todos começam a falar sussurrando e a se movimentar com o máximo cuidado. O silêncio é sagrado e cada barulhinho, por mínimo que seja, é ouvido e repreendido por todos.
O lugar em que você senta representa 30% da sua ida ao cinema. Se você pegar um bom lugar (mais precisamente no meio e a partir da 8º fileira contando de baixo pra cima), mesmo que o filme seja ruim você pode aguentar vê-lo até o fim. Mas, mesmo o filme sendo o seu preferido, se você se senta em um lugar ruim, sairá de lá com a frustante sensação de não ter visto o filme inteiro.
Escolhido o lugar certo, é hora de esperar uns dez minutos até o filme começar. Você desliga o celular, se acomoda na cadeira, cochicha mais um pouco e acomoda o lanche em seu devido lugar pra não ter problemas com ele durante o filme.
O chiado no som acima da sua cabeça é que determina o começo da mais nova mudança em sua vida. Sim, porque ela irá mudar. Mesmo que o filme não preste, assistí-lo fará com que você nunca mais saia de casa para vê-lo ou recomende-o a um amigo. E isso é uma mudança, não?
Após as luzes serem apagadas, você se sente pronta para mais uma aventura. Para deixar seu problemas de lado, entrar de cabeça em um mundo totalmente diferente do seu e torcer para que outras pessoas resolvam seus próprios problemas. Sonhar junto com elas, rir, chorar, xingar. Um sentimento de cumplicidade invade a sala.
E então, quando as luzes se acendem e todos se levantam para ir embora, você só tem dois caminhos (predispostos) a seguir. 1) Você se alegra, põe um sorriso na cara e comenta com todo mundo como o filme foi bom, como você virá assistir de novo com fulaninho e como vai comprar o DVD e chamar os amigos para uma sessão em casa; ou 2) Sai resmungando e apontando os defeitos do filme, pensando em como deveria ter escolhido aquele outro filme e já programando a próxima vinda à sala escura.
