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domingo, 13 de novembro de 2011

Meia-noite em Paris

Midnight In Paris

Nostalgia Laranja

Primeiro Woody Allen nos transporta para a cidade em que viveremos pelos próximos cem minutos, mostrando planos de ruas, construções, pessoas e chuva em Paris. Depois ele deixa que Owen Wilson nos apresente o doce protagonista da trama, Gil Pender, escritor de roteiros em Hollywood que sonha em ver seu primeiro romance publicado e está noivo de Inez (Rachel McAdams), uma mulher rica tão entediante que todas as suas roupas seguem o mesmo padrão previsível. Então Gil assume o posto de guia e nos confessa que está em viagem turística por sua amada Paris junto com sua noiva e seus sogros, quando casualmente encontra Paul, um conhecido que não inspira nele a mínima simpatia e que, mais tarde, descobrimos ser somente definido corretamente pela palavra pedante. Com sua noiva encantada por Paul e sozinho em sua devoção pelas ruas da cidade, Gil decide se divertir caminhando pela cidade-luz... até ser surpreendido por seus famosos ídolos da Era de Ouro.

E então toda a paleta de cores neutras puxadas para o cinza que presenciamos até aqui e que refletem o mais do mesmo da elite turística (compras e jantares em restaurantes caros) se transformam em uma explosão de laranjas nostálgicos na Paris da década de 20, onde vemos Gil se encontrar com gente como Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Tolouse Lautrec e Pablo Picasso! A mais notável e reconhecível (apesar de sem o característico bigode) entre todas essas personalidades no entanto, é Salvador Dalí; Adrien Brody se deleita no surrealismo caricato da persona do pintor e transforma tudo em rinocerontes.

As referências (e os nomes à frente delas) só serão captadas obviamente por quem tem o mínimo conhecimento da história da Era de Ouro e seus protagonistas, o que infelizmente não é um grupo de maioria. Fui surpreendida com um "quem é esse" vindo de amigos que me acompanhavam na exibição quando, na tela, um francês baixinho desenhava sentado a uma mesa no Moulin Rouge. Esse é, porém, um mal necessário quando se tem a beleza de um filme nas sutilezas e detalhes que ele oferece. Allen não precisa explicar que Gil está sugerindo o enredo de um futuro filme a Buñuel, assim como não precisa explicar como ele chegou nessa época fantástica e o porquê. Não é isso o que interessa. O importante é ver Gil conviver com pessoas que há muito se calaram e experimentar seu mundo, tão sonhado por ele.

E enquanto Gil Pender passeia pela época de seus sonhos, podemos presenciar o ótimo trabalho de Wilson, perfeitamente encaixado no personagem com seu jeito de bom moço agradável e fácil de lidar, além de seu timing cômico, perfeito na cena em que ele desbanca a explicação de Paul sobre um quadro de Picasso com seu recém-adquirido conhecimento sobre o pintor. Curiosa e bem articulada é a semelhança com Woody Allen que Wilson consegue passar para Gil: nenhum sorriso, desdém, gestos desajeitados e uma leve histeria. Por alguns segundos cheguei a pensar que o próprio diretor havia assumido o papel principal!

Owen Wilson rouba o papel de adorável que sempre cabe à Rachel McAdams, aqui uma jovem fútil e egoísta. Tão digna de algumas viradas de olhos quanto Carla Bruni, mas não pelas mesmas razões. A cantora/atriz se mostra inexpressiva e sem força nenhuma no papel que lhe atribuíram. A minha impressão é de que ela atua com um tele-prompter à sua frente.

As pequenas e entediantes aparições de Bruni, no papel de uma guia turística francesa, não são suficientes contudo para nos desviar do ponto do filme: a reflexão que Allen propõe a medida que o longa se encerra. Gil representa a atitude tipicamente humana de rejeitar o presente e idealizar seus objetivos, resumida no velho ditado que diz que a grama do vizinho é sempre mais verde. Até as personalidades que viviam na época perfeita para Gil ansiavam por uma outra anterior, perfeita para eles mesmos. Ao final de todo esse escapismo que acaba vivendo, Gil chega a conclusão de que o melhor que ele (e todos nós) tem a fazer é aproveitar o presente para, assim, aproveitar a vida. 

sábado, 5 de novembro de 2011

A Rainha da Fofoca em Nova York – Meg Cabot

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Todo mundo sabe que o tipo de romance que Meg Cabot escreve é bem previsível – a mocinha fica com seu par perfeito no final. Isso nunca foi um problema para mim porque realmente me irrita quando o contrário acontece; há bastante desilusões amorosas na vida real para eu ter que me preocupar com elas também na ficção. Além disso, como diz minha amiga Lisbela, a graça não é saber o que acontece, é saber como acontece e quando acontece.

O fato é que A Rainha da Fofoca em Nova York é uma exceção à essa regra que domina a obra de Meg. Mas antes de falar disso, vamos ao clássico enredo Cabot: Lizzie Nichols tem duas questões da sua vida para resolver: o lado amoroso obviamente, e o lado profissional. Na área romântica de sua vida parece tudo muito bem, obrigada. Lizzie está morando com Luke, seu príncipe, em um luxuoso apartamento na Quinta Avenida. O problema é que ela não tira a idéia de que Luke a pedirá em casamento da cabeça, mesmo que eles só se conheçam a bem pouco tempo (“bem pouco” querendo dizer abaixo do socialmente aceitável para esses casos). A idéia fixa de união eterna pode ter vindo, porém, de sua vocação profissional, a restauração de vestidos de noiva. É aí que reside o outro problema que Lizzie deve resolver: Vera Wang não ligou depois de receber seu currículo e ela não consegue arrumar emprego em seu ramo de atuação na impiedosa Nova York.

Lizzie é adoradora de roupas vintage, por isso o livro está cheio de referências a estilistas antigos. Todas as roupas que ela usa são de brechó e ela tem uma enorme coleção que por pouco não cabe no apartamento de Luke. E é toda essa bagagem e experiência em restauração de vestidos que rende uma dica para noivas antes de cada capítulo. As dicas vão de como escolher o vestido certo para o seu corpo à tipos de tiara e decotes. Como no primeiro livro, cada dica é seguida de uma espirituosa citação sobre fofoca.

A primeira aventura de Lizzie, no entanto, é bem mais engraçada do que esta. O fio cômico não é tão acentuado dessa vez, ou não tanto quanto quando, em A Rainha da Fofoca, [SPOILER do livro anterior] Lizzie descobre que seu namorado é, na verdade, o cara na jaqueta vermelha horrorosa que ela pensou ser um tarado [/SPOILER]. Mas isso não impede que este seja um ótimo livro de Meg em seu estilo característico, cativante e bem conduzido; nenhuma ponta permanece solta, é tudo bem coeso. São bem resolvidos até alguns pequenos mistérios típicos de Cabot que te deixam imaginando inúmeras soluções para eles e, no final, ela te surpreende com uma solução impensável, mas totalmente adequada.

Voltando ao que faz desta uma exceção na obra de Meg: há um ponto em que não sabemos se Lizzie realmente vai ficar com seu príncipe no final, ou com um amigo realmente encantador. Normalmente não é o que acontece nesses livros, onde o happy ending com o amor eterno é certo. Mas é tão angustiante ficar tentando imaginar o que irá acontecer que nesse ponto você acaba devorando todo o resto do livro só para acabar com essa ansiedade. O que na verdade não faz muito efeito já que as emoções de Lizzie se encontram meio suspensas no último capítulo. Meg Cabot trabalha nisso, nesse mistério em relação às futuras ações de Lizzie, com tanto cuidado que a última frase do livro é uma pergunta. Uma pergunta crucial que paira na última página, sem resposta até o término do próximo livro.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Morto Até o Anoitecer – Charlaine Harris

Sociologia Vampírica

General Image B2W O universo mitológico de Charlaine Harris é diferente de tudo que você já leu e ouviu sobre vampiros – essas criaturas tão exaustivamente exploradas há tempos. Nem Anne Rice, muito menos Stephanie Meyer fizeram algo parecido.

No mundo de Harris os vampiros “saíram dos caixões”, de acordo com a metáfora que a própria autora usa para representar o reconhecimento e a “inclusão” dos vampiros na sociedade, fato que aconteceu quatro anos antes do início do livro. Essa é a principal diferença de Morto Até o Anoitecer das outras histórias de vampiros: eles andam livremente por aí reconhecidos pelo que são, mas rejeitados por serem representantes do mal, na maioria das vezes. Os vampiros pertencem à noite, dormem em caixões durante o dia, enfraquecem ao contato com prata e seu sangue é usado como uma droga por alguns – ele causa alucinações, melhora a saúde e a vida sexual dos humanos. Pessoas capturam vampiros e os drenam (o que, à propósito, é crime) para fornecer mercadoria a essa mais nova modalidade de tráfico. O True Blood é uma bebida sintética criada pelos japoneses que fornece todos os ingredientes necessários para a sobrevivência de um vampiro, livrando-os da necessidade biológica de morder inocentes (ou não). Até a prostituição evoluiu nessa sociedade: os vampirófilos recebem dinheiro para se deixarem morder.

Na pequena cidade de Bon Temps, no norte da Louisiana, Sookie Stackhouse tem o seu desejo de encontrar um vampiro cara-a-cara realizado quando Bill Compton e suas presas adentram o bar Merlotte, onde a moça trabalha. Sookie logo descobre que o vampiro Bill chegou pra ficar – e mais perto do que ela esperava. Ele irá reassumir a casa de sua família que por acaso é vizinha à casa onde Sookie mora com sua avó desde que seus pais morreram em um acidente de carro quando ela ainda era criança. Além de encantada com o cavalheirismo de Bill – qualidade rara nos jovens da cidade –, Sookie fica fascinada com o fato de não ser capaz de ouvir seus pensamentos. Depois de anos de barulheira alheia, ouvindo (independentemente de sua vontade) os comentários mais íntimos das pessoas (às vezes até não tão gentis, e dirigidos à ela), Sookie se delicia com a paz que encontra nos braços do Sr. Compton.

Enquanto os pombinhos se amam loucamente nas cenas pouco mais que sensuais descritas por Harris, uma série de assassinatos antecedidos por estupros vêm acontecendo na pacata cidade de Bon Temps e mexendo com os nervos de todos. As vítimas são jovens garçonetes que tinham uma certa predileção por vampiros quando o assunto era os prazeres da vida. Sendo assim, Sookie teme por sua vida e pelas daqueles que vivem ao seu redor. Além de ter que se preocupar com seu irmão, Jason – lindo como Narciso e burro como uma tábua –, que por já ter dormido com todas (to-das) as moças assassinadas é o primeiro na lista de suspeitos dos crimes.

Charlaine Harris nos mostra que o cérebro de uma heroína não precisa se transformar em meleca quando ela se apaixona. Sookie Stackhouse é forte, decidida e sabe impor sua personalidade. Apesar disso não deixa de lado sua feminilidade e, como toda mulher, se preocupa com o que vai vestir, com sua aparência e tem inseguranças em seu relacionamento.

A escrita ágil e detalhista da autora nos transporta para o mundo de preconceitos, fofocas, estereótipos, moralismo e mentes estreitas de uma pequena cidade – ainda mais aparentes à medida que Sookie nos põe a par dos pensamentos dos moradores e expõe sua hipocrisia.

Sexy, violento, divertido e detalhista, Morto Até o Anoitecer é ótimo para um mergulho em um universo diferente do habitual e tão bem apresentado. A história de Sookie prossegue na série que, até agora, tem 12 volumes, dos quais 7 têm edições brasileiras. E, pra quem ainda não se deu conta, os escritos de Charlaine Harris deram origem à adorável série da HBO de nome True Blood.