Eu ri bastante quando
uma amiga minha (aquela fofinha que pensa cada coisa!), chegou pra me dizer que
antes de me conhecer achava que não morava ninguém no Sítio Histórico de
Olinda. Ela achava que devia ser assim como um cenário ou um set de filmagem;
as casas todas vazias, só aparecia alguma alma viva em fevereiro mesmo. Como
uma cidade zumbi, que só se enche no Carnaval, com gente de fora, quando os
donos das casas (que não moram lá) alugam suas casas vazias para pessoas de
outros estados e marcas de bebida e canais de TV.
Para acabar com essa
fantasia, deixa eu dizer a vocês... existe vida no Sítio Histórico de Olinda
além do Carnaval! Olha, que beleza!
Apesar de não ter tanto
movimento quanto uma Boa Viagem da vida, as pessoas moram e vivem aqui. E até
parece um bairro mesmo (oficialmente não é). Além de ladeiras, ruas estreitas,
Quatro Cantos, pousadas, Creperia, igrejas, Licoteria e inúmeras galerias, tem
também restaurante, padaria, mercadinho, sorveteria, salão de cabeleireiro, posto
de saúde, fiteiro, escolas e delegacia de polícia (Tourist Police, que a gente
é chic).
De manhã parece mesmo é
cidade pacata do interior. Não tem carro de som, nem carrinho de CD’s piratas,
ninguém escuta som alto, não passam muitos carros, não tem semáforo. Tem é
gente andando a pé, de bicicleta, indo pro trabalho ou pra o colégio e dando
“bom dia”. Lá pras 11h aumenta o movimento porque os turistas vão passear, de
boné, tênis, meia no meio das canelas e câmera nas mãos. Sempre tem em média
uns três ônibus de turismo estacionados aqui perto de casa. Nota: morar no
Sítio Histórico é aprender a reconhecer gringo de longe e saber dar informação
em mais de uma língua ou, para o caso do monoglota, em língua de sinais.
À tarde a gente vai
passear no Sítio de Seu Reis com o cachorro, onde tem sempre gente correndo,
não importa o horário. Tem também Tai chi chuan e dança pra quem quiser. Se
quando começar a escurecer já for sexta ou fim de semana aí sim, tem mais gente
na rua. E dá para ouvir as alfaias da sala de casa. Principalmente quando tá
chegando o Carnaval.
Daria pra saber que ele
está chegando mesmo sem o calendário e sem que todo mundo precisasse lhe
lembrar a toda hora no Facebook e na TV. São as placas de “aluga-se”, as
fitinhas coloridas penduradas nas ruas, as pinturas novas das casas, a
decoração feinha e igual todo ano da prefeitura, os bloqueios de carros e a
pressão pra pegar logo o seu adesivo de morador.
Quando chega na dona sexta-feira,
antes do seu Zé Pereira, o movimento aumenta, assim, só um pouquinho. É preciso
uma meia hora pra se atravessar uma rua e todos somos agraciados com o famoso
perfume biológico que impregna algumas delas. Todo mundo diz: “nossa, deve ser
muito bom morar no meio da folia!” Eu não vou mentir: é bom. Mas dá trabalho. É
acordar às 6h pra, antes de sair, lavar o banheiro social que vai ser usado por
todos os seus amigos e conhecidos (até desconhecidos apertados, às vezes) que
você nem lembrava mais que existia, mas que, no Carnaval, resolvem lhe fazer
uma visita rápida porque estavam “de passagem”. Além disso, é preciso limpar a
casa (cheia de pegadas deixadas pelos visitantes no dia anterior), encher a
garrafa d’água, providenciar os copos de plástico e colocar a mangueira do lado
de fora para o caso de alguém vir pedir para dar um banho no amigo bêbado
desacordado.
Tudo isso a gente aguenta
feliz e de sorriso aberto porque, afinal, é Carnaval! E, amiga, por mais que a
gente ame esse pedacinho da cidade todos os dias do ano, nunca se ama tanto
esse lugar quanto durante os quatro dias de Momo.