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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Só!

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida e escura,
Minh’alma sem amor é cinza e pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!…
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre…
O instante que foge, voa, e passa…
Fiozinho de água triste…a vida corre…

Florbela Espanca – Livro de Sóror Saudade

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Sonhos de virgem

Que sonhas, virgem, nos sonhos
Que à mente te vêm risonhos
Na primavera inda em flor?
No celeste devaneio,
No doce bater do seio,
Que sonhas, virgem? – amor?

Que céus, que jardins, que flores,
Que longos cantos de amores
Nos lindos sonhos te vêm?
E quando a mente delira,
E quando o peito suspira,
Suspira o peito – por quem?

Sonhando mesmo acordada,
Pendida a fronte adorada,
Num cismar vago e sem fim;
Do olhar o fogo tão vivo,
A voz, o riso lascivo,
O pensamento é - pra mim?!

Quando tu dormes tranquila,
Cerrada a negra pupila
E o lábio doce a sorrir,
Então o sonho dourado
Nas dobras do cortinado
Vem esmaltar teu dormir!

Oh, sonha! – Feliz a idade
Das rosas da virgindade,
Dos sonhos do coração!
- Puro vergel de açucenas
Ou lago d’águas serenas
Que estremece à viração!

Feliz! Feliz quem pudera
Colher-te na primavera
De galas rica e louçã!
Feliz, ó flor dos amores,
Quem te beber os odores
Nos ovarlhos da manhã!
 

Casimiro de Abreu.